Sátántangó. Béla Tarr, 1994
1.
Da moldura do binóculo, o corpo observa.
Anterior à imagem que captura, suporta um peso
insustentável, evidente à medida que escutamos os ruídos e observamos os movimentos
que ainda é capaz de executar.
Seu rosto, sua barba por fazer, as bolsas de pele debaixo
dos olhos doentes – o rosto de um homem que apodrece.
O espaço do quarto é organizado de modo que tudo esteja ao
alcance das mãos. Da cadeira, estende os braços e move o tronco com grande
esforço, abre gavetas e portas, vasculha cadernos; fuma, enche o copo, bebe.
2.
Pelo binóculo, o corpo segue um homem detrás de uma janela –
Futaki. Sabe que está sendo observado, mas não sabe por quem. Em certo momento
passa os olhos pela câmera nos procurando, procurando a porta que o narrador
nos abriu.
O corpo que observa também registra e narra. E é
sistemático: mantém arquivos daquele pequeno núcleo de espionados. Detém-se nos
habitantes da comunidade rural da qual faz parte. Fiscaliza e detalha seus
gestos. Dita a si mesmo, em voz lenta e gutural, um som das entranhas, as
intenções das espécies que acabara de forjar.
Tira conclusões: “Futaki está aterrorizado. Tem medo de
morrer.” Escrutina os horários para ordenar o informe – dividido em doze partes
e em múltiplas perspectivas, Sátántangó
não é linear. Tenta lidar com essa ambiguidade: ultrapassar o crivo do tempo,
conviver com a ordenação consecutiva da linguagem. Registrar e beber pressupõem
rotina. A esperança de que os hábitos tenham algo de intemporal.
3.
A certa altura passa pela porta uma personagem. Chama-o de
doutor. Também nos informa que o mau tempo a impede de continuar a trazer
mantimentos.
Um tempo depois, o Dr. tenta ficar de pé, mas não pode se
equilibrar. Na passagem de um cômodo a outro, desaba. E permanece deitado, talvez
insconsciente. Mas nos perguntamos se na verdade não se recusa a levantar-se, como o Bartleby de Melville.
Depois da queda, passamos a esquadrinha-lo, medir as
dimensões de um corpo inesgotável. Provamos um pouco de sua jurisdição de
médico, de sua jurisdição de narrador.
4.
Borges afirma que a linguagem não é hábil para falar do
eterno; padece de um caráter sucessivo – o signo é linear, ainda que se refira
ao simultâneo.
O título deste fragmento de Sátántangó é sintomático: “Compreender Algo”. Escrever é domesticar
o tempo, designar e aprisionar quem nele se desloca.
Há alguns artifícios. A sugestão de várias unidades
espaçotemporais é o primeiro e mais óbvio recurso, além das tensões entre
diferentes pontos de vista, como num mosaico cubista, e a duração prolongada dos planos e das cenas.
Como em O cavalo de
Turim (2011), Béla Tarr confronta o determinismo cronológico, impessoal e
objetivo suspendendo a lógica progressiva da narrativa e a convenção da
história única.
Mais representativa é a sequência da taverna – os
personagens orbitam ao redor da música repetitiva e da dança interminável, são
eles o próprio eterno retorno.
5.
O caminho é longo. No século XX pode iniciar em Kafka, desde
a punição inscrita no corpo do condenado, à transformação no inumano, à
debilidade do artista enjaulado; passar por Melville e seu escrivão, pelos
corpos em distorção de Francis Bacon, pelos junkies de Burroughs.
Deleuze e Guattari chamaram de corpo sem órgãos (CsO) um
conjunto de práticas oposto à experiência vigente do organismo.
“O organismo já é isto, o juízo de Deus, do qual os médicos
se aproveitam e tiram seu poder.” O CsO é um retorno ao ponto de partida,
quando o corpo era “sozinho”, aberto a conexões, avesso ao corpo utilitário.
O corpo já não suporta o adestramento da “forma-homem”, por
isso caminha arqueado, arrasta-se no chão, recusa o movimento. Luta para
permanecer em estado embrionário, onde habita a literatura. Pélbart: “é dessa
impotência que ele agora extrai uma potência superior.”
São posturas que tangenciam a morte e desarticulam o
organismo, deixando passar as forças que “um corpo ‘blindado’ não permitiria.”
6.
O paradoxo é administrar a composição
fragilidade-vitalidade, na qual a prudência é a chave para experimentar a
dominação e não aprofundá-la. Servir-se da Doença: “A arte das doses.”
Trata-se de um jogo: inventar pequenas autodestruições,
esvaziar-se, oferecer o corpo orgânico como potência de um CsO. Ao
utilitarismo, opor um corpo inapto.
7.
Algum tempo decorreu para que o corpo levantasse da queda.
Para recuperar-se da queda, o Dr. encontra uma seringa na gaveta. Também a
Saúde em pequenas doses.
De pé, recorre ao hábito para descobrir que já não há como
saciá-lo. “Acabou o brandy de frutas. Parece que precisarei sair da casa.”
Fora de casa, todas as partes do caminho exigem grande
esforço – a chuva e o vento,
inclementes; o lamaçal pesa suas pernas, como se não estivessem acostumadas a
suceder uma à outra; o horizonte infinito e despovoado, a paisagem árida, reduzem
a esperança da volta.
O dia vira noite e volta a clarear; a chuva cessa. Nesse
ínterim, mais duas quedas. A jornada só termina quando é resgatado por um homem
que passa de carroça na estrada, margeando seu corpo inócuo debaixo das árvores
secas.
Termina o episódio e seu destino permanece inconcluso.
8.
“Tempo asqueroso. Destrói tudo.”
Em Sátántangó sobrevive
o essencial, o mínimo – objetos, tons, personagens, diálogos, cortes. Isolado
no tempo e no espaço está o corpo; ele é autonomia e desamparo.
9.
Retorna a jornada do médico no episódio final, “O Ciclo se Fecha”.
Tangenciou a morte do corpo para regressar à casa. A caminho
de si mesmo, o convalescente é o corpo do eterno retorno, do tempo cíclico.
Está em movimento perpétuo de criação e morte. Nietzsche: “Tudo que padece quer
viver.”
Ao abrir a porta, não mostra surpresa: “Tudo está como o
tinha deixado.” No entanto não há como ficar: os habitantes estão todos de
partida.
Já não há chuva quando decide segui-los. Cerra a janela com
tábuas de madeira.


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